Hong Kong dá enorme passo no mercado global de metais preciosos com novo sistema de compensação de ouro

Lançada em regime experimental, a iniciativa procura transformar a região administrativa em um polo de determinação de preços e armazenamento de ouro na Ásia, desafiando a hegemonia de Londres e Nova Iorque.

Em um movimento estratégico que promete redesenhar o mapa do comércio global de metais preciosos, o governo de Hong Kong anunciou o início da operação experimental do seu novo Sistema Central de Compensação de Ouro. A iniciativa, revelada pelo Chefe do Executivo, John Lee, durante o summit Hong Kong FIC & Bond Connect, representa a concretização de um dos pilares mais ambiciosos delineados no Chief Executive’s 2025 Policy Address e procura posicionar a cidade como um ecossistema financeiro de referência para metais preciosos na Ásia.

Gerida pela recém-criada Hong Kong Precious Metals Central Clearing Company (HKPMCC) — uma entidade detida pelo governo —, esta nova infraestrutura financeira foi desenhada para modernizar a liquidação local do metal precioso e alinhar a região com os padrões internacionais existentes em outras bolsas de liquidação física de metais preciosos, com a LBMA – London Bullion Market Association. O conselho de administração da HKPMCC conta com a participação de autoridades reguladoras, da Bolsa de Ouro de Xangai e de 11 das principais instituições bancárias do território, incluindo grandes bancos como o HSBC, o Bank of China (Hong Kong) e o Industrial and Commercial Bank of China (Asia), que já concluíram com sucesso as primeiras transações de teste.

Conectividade Direta com Xangai e o Indicador “HAU”

Uma das componentes mais importantes do novo sistema é o lançamento da primeira fase do programa Delivery Connect, uma parceria com a Bolsa de Ouro de Xangai. Este mecanismo permite aos participantes do mercado utilizar as suas reservas físicas de ouro de forma intercambiável para liquidar transações tanto em Hong Kong quanto em Xangai. Instituições financeiras de relevo já começaram a transferir barras de ouro de 400 onças (em conformidade com o padrão internacional London Good Delivery) para os cofres locais para garantir liquidez imediata.

Para além da infraestrutura física, a iniciativa traz uma importante novidade para a transparência do mercado: o lançamento do indicador de preços HAU, desenvolvido em parceria com a Bloomberg. Disponível nos terminais financeiros sob o símbolo HAU, este novo indicador agrega propostas de compra e venda em tempo real para gerar uma taxa composta de referência. O objetivo é criar um preço de referência robusto para o ouro especificamente para o fuso horário asiático, reduzindo a dependência histórica dos mercados ocidentais durante o período da manhã na Ásia.

Ambientes Seguros e Capacidade de Armazenamento Ampliada

O Secretário para os Serviços Financeiros e o Tesouro, Christopher Hui, e o Secretário das Finanças, Paul Chan, sublinharam que a compensação centralizada reduz drasticamente os riscos sistêmicos. O plano das autoridades locais passa por integrar, a curto prazo, este sistema de compensação de ouro na rede local de Liquidação Bruta em Tempo Real (RTGS). Esta integração permitirá a implementação do modelo de “Entrega contra Pagamento” (DvP – Delivery versus Payment), unindo a entrega física do metal à liquidação financeira imediata.

Para ajudar a consolidar Hong Kong como o principal hub de comercialização de ouro na região, a Autoridade Aeroportuária deve expandir a capacidade de armazenamento local de ouro para mais de 2.000 toneladas no espaço de três anos. Paralelamente, estão a ser desenhados incentivos fiscais para atrair mineradoras, refinarias e investidores institucionais globais.

Reações do Setor: A Ásia no Centro da Ação

A recepção do mercado à nova infraestrutura tem sido amplamente positiva. Shaokai Fan, Diretor para a região Ásia-Pacífico do World Gold Council (Conselho Mundial do Ouro), classificou a iniciativa como um “grande passo à frente”. De acordo com o especialista, o fato da maior parte do consumo global de ouro estar concentrado na Ásia justifica a necessidade da região ter uma infraestrutura que ajude na comercialização do metal e, em consequência, ajude a transformar a região em um market maker de preço.

Especialistas apontam que, embora Singapura também esteja desenvolvendo os seus próprios sistemas de compensação para o mercado de balcão (OTC), os dois mercados deverão atuar de forma complementar, capitalizando o forte aumento da procura por ativos seguros num cenário geopolítico volátil.

Com essa iniciativa, Hong Kong deixa de ser apenas uma plataforma de trânsito físico para o ouro que entra na China Continental, para se tornar uma força motriz na custódia, liquidação e descoberta de preços do metal precioso.