No final da década de 1970, o mundo financeiro testemunhou uma das tentativas mais audaciosas de manipulação de mercado da história moderna. Nelson Bunker Hunt e William Herbert Hunt, herdeiros de uma vasta fortuna petrolífera no Texas, quase conseguiram o impossível: encurralar o mercado global de prata. O que começou como uma estratégia de proteção contra a inflação transformou-se em uma bolha especulativa que, ao estourar, abalou as estruturas de Wall Street e mudou para sempre a regulação do mercado de commodities.

De onde veio o dinheiro? Um pouco da história da família Hunt
A fortuna dos Hunt começou com Haroldson Lafayette Hunt – nascido em uma família pobre, sem educação formal nem meios para obtê-la. Aos 22 anos, ele começou a ter sucesso como empresário, comprando e vendendo algodão e plantações de algodão. Logo seu foco mudou para algo maior e mais rápido: o petróleo. Haroldson acertou em cheio no Texas, acumulando bilhões, e, após sua morte, os irmãos Hunt passaram a administrar grande parte dos negócios da família – Bunker, Herbert e Lamar Hunt.
A motivação dos Hunt era, inicialmente, pragmática. Em um cenário de inflação galopante e instabilidade geopolítica nos anos 70, os irmãos buscavam ativos reais para proteger sua riqueza. Como a posse de ouro para fins de investimento era proibida por lei nos Estados Unidos na época, eles voltaram seus olhos para a prata.
A partir de 1973, os Hunt começaram a acumular o metal de forma agressiva. Eles não apenas compravam prata física, mas também dominavam o mercado de contratos futuros. Em parceria com investidores árabes, através da entidade International Metals Investment Co. (IMIC), os irmãos chegaram a controlar aproximadamente 195 milhões de onças de prata no início de 1980. Essa quantidade representava mais de 57% de todo o estoque de prata reportado nos Estados Unidos, tanto estoques públicos, como privados, que totalizava cerca de 339,6 milhões de onças [1]. Em relação à oferta global disponível, a posição dos Hunt era massiva, sendo frequentemente descrita como o controle de “metade da oferta mundial disponível”.
A manipulação do mercado de prata
À medida que os Hunt compravam, o preço da prata subia. O que era negociado a menos de US$ 2 por onça em 1973 saltou para US$ 5 em 1979. No entanto, o verdadeiro frenesi ocorreu na virada para 1980. Em janeiro daquele ano, a prata atingiu o pico histórico de aproximadamente US$ 48,70 (chegando a tocar os US$ 54 em algumas cotações intradiárias). Para acumular quantidades cada vez maiores, ao invés de aceitar liquidações em dinheiro para os contratos futuros, os irmãos Hunt optavam pelo caminho menos comum: exigir a entrega física da prata.

Ao preço atual de aproximadamente US$ 75 por onça (09 de fevereiro de 2026), as 195 milhões de onças que os irmãos Hunt chegaram a possuir valeriam hoje cerca de US$ 14,625 bilhões.
O mercado global de prata começou então a enfrentar sérios problemas de oferta. Os preços de joias subiam, furtos aumentaram e pessoas comuns vasculhavam suas casas atrás de qualquer objeto de prata para vender e aproveitar a febre.
Funcionou bem … até que deixou de funcionar
O plano dos irmãos Hunt estava indo muito bem até que a COMEX (Commodity Exchange, Inc.) decidiu intervir. Em 7 de janeiro de 1980 (cerca de uma semana antes do pico do preço da prata), a COMEX introduziu a Silver Rule 7 (Regra 7 da Prata). Dentre as principais medidas dessa nova regra destacavam-se: a) a proibição de abertura de novas posições de compra (long), os investidores apenas podiam realizar operações para fechar ou reduzir posições existentes; b) aumento expressivo das margens de garantia; e c) a redução do número de contratos que um único investidor ou grupo podia manter. Essas medidas fizeram com que os preços dos contratos futuros de prata só tivessem um único caminho, para baixo.
O que foi o Silver Thursday?
Na quinta-feira, 27 de março de 1980, o mercado de commodities despencou. Os irmãos Hunt não conseguiram cobrir uma chamada de margem e o Silver Thursday aconteceu. O preço da prata caiu mais de 50% em um único dia, ficando abaixo de US$ 11 por onça.
Seus bilhões em ativos rapidamente se transformaram em mais de um bilhão de dólares em dívidas. Isso não afetou apenas os irmãos Hunt; também ameaçou a falência de várias corretoras e bancos. Para evitar um colapso total, vários bancos se uniram e concederam aos irmãos uma linha de crédito de US$ 1,1 bilhão para cobrir suas obrigações, embora eles tenham ficado pessoalmente falidos.
Para piorar a situação dos irmãos Hunt, o preço do petróleo despencou nos anos 1980, quase os deixando sem nada. Eles declararam falência corporativa em 1986 e falência pessoal em 1988.
Em 1988, um júri de Nova York condenou os irmãos Hunt a pagar mais de US$ 130 milhões em danos à empresa de marketing mineral do governo peruano, que sofreu graves prejuízos com o colapso. Ainda assim, os irmãos saíram por cima porque seus trusts, que detinham as empresas de petróleo da família, não foram afetados pela ação judicial.
Para dar o golpe final, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) multou cada irmão em US$ 10 milhões e os proibiu de negociar nos mercados de commodities americanos por tentarem manipular as reservas de prata do país.
Isso poderia acontecer de novo?
Será que uma manipulação no estilo dos Hunt poderia ocorrer no mercado atual? Embora as regulamentações modernas tornem muito mais difícil dominar o mercado, a prata continua volátil e suscetível a grandes oscilações de preço.
Durante a pandemia de COVID-19, a prata mostrou essa volatilidade: caiu para US$ 13 por onça em março de 2020 e subiu para US$ 28 em setembro – um aumento de 115% em apenas seis meses.
Os fundamentos que impulsionam o valor da prata também mudaram bastante desde a era dos Hunt. A demanda industrial expandiu-se além da fotografia tradicional para tecnologias modernas essenciais, especialmente painéis solares, que exigem grandes quantidades de prata para células fotovoltaicas.
Ao mesmo tempo, a produção global de minas tem dificuldade para acompanhar a demanda, criando um equilíbrio delicado entre oferta e procura que deixa o mercado sensível a perturbações.
Ainda assim, apesar dessas pressões, o mercado de prata de hoje é bem diferente do de 1980. Negociação digital, maior supervisão e limites de posição mais rígidos tornam praticamente impossível que uma única entidade acumule a posição dominante que os irmãos Hunt tiveram.
Embora os preços da prata possam continuar tendo grandes flutuações, as salvaguardas criadas após o Silver Thursday ainda funcionam como barreira contra manipulações em grande escala.
Mas e os irmãos Hunt?
Apesar de todas as confusões e tropeços financeiros, segundo matéria publicada pela Scottsdale Mint [2] os Hunt ainda são uma das famílias mais ricas da América. Com a fortuna construída por H.L. Hunt, a família se diversificou e investiu em uma infinidade de indústrias.
Curiosamente, Lamar Hunt (irmão de Nelson e William) foi um dos fundadores da American Football League, e a propriedade do time Kansas City Chiefs permanece na família. Na linha dos esportes, os Hunt também são donos do FC Dallas e detêm uma participação minoritária no Chicago Bulls.

A família continua envolvida no setor de petróleo e gás e possui um impressionante portfólio imobiliário. No total, estima-se que a fortuna da família supere os US$ 20 bilhões.
A saga da prata dos irmãos Hunt serve como um poderoso lembrete de que mesmo os bolsos mais profundos não conseguem controlar o mercado para sempre. Embora os irmãos Hunt tenham falhado em dominar o mercado de prata, eles conseguiram deixar uma marca indelével na história financeira.
Referências:
[1] Relatório
[2] (2024) The Hunt Brothers: How Two Billionaires Broke the Silver Market. Matéria publicada pela Scottsdale Mint.